sábado, 10 de outubro de 2015

REGIÃO: IDENTIDADE E POLÍTICA











A chamada Serra Gaúcha recebeu vários nomes, tendo sido dividida e classificada de várias formas no decorrer do tempo. Nos primeiros anos de seu povoamento, que teve início de forma sistemática em 1875, foi conhecida como Colônia Italiana. Tal nome foi consagrado no álbum do cinqüentenário da imigração, publicado em 1925, com o apoio do governo de Mussolini. Da Colônia Italiana faziam parte as colônias imperais de Conde D’Eu, Dona Isabel, Caxias, Alfredo Chaves e Antônio Prado. As três primeiras, criadas em 1875; a quarta, em 1885 e a quinta, em 1886. Muito tempo depois de deixarem de ser colônias, e após se terem tornado municípios ou distritos de outros municípios, entre 1884 e 1898, continuaram a ser conhecidas como Colônias Italianas.
Com a criação do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em 1945, a antiga região recebeu novas denominações. Na classificação fisiográfica realizada naquele ano, foi chamada de Zona da Colônia Alta. Em 1956, através de nova divisão baseada nas condições geomorfológicas, recebe o nome de Encosta Superior do Nordeste. Em 1969, aconteceu um novo ordenamento e a região passou a ser chamada de Antiga Região Colonial Italiana, levando em conta os fatores étnicos. Mais tarde, os critérios adotados foram os econômicos, passando a ser chamada de Microrregião Vinicultura de Caxias do Sul.
Apesar da mudança de classificações, a região continuou a mesma sob o ponto de vista geográfico, mas sofreu mudanças em sua economia e na administração, com a criação de novos municípios e a conseqüente fragmentação territorial.  De acordo com o Censo de 2000, a região possui aproximadamente um milhão de habitantes, sendo composta por cerca de 53 municípios derivados das cinco antigas colônias,  polarizada hoje por Caxias do Sul.
Durante seu povoamento, no período compreendido entre 1875 e 1914, entraram na região cerca de 100 mil imigrantes provenientes do Norte da Itália: vênetos e lombardos, do Império Austro-Húngaro, trentinos (ou tiroleses), e ainda alemães, poloneses, suecos, russos, suíços, franceses e até norte-americanos. Foram  vendidos cerca de 10 mil lotes, que ocupavam  cerca de 400 mil hectares da área das cinco colônias.
 Hoje sua população não é composta apenas de descendentes de imigrantes italianos. Moradores vindos de várias regiões dão nova vida à região. São descendentes de lusos, dos primitivos habitantes da região, de açorianos, de africanos, de asiáticos e de  muitos latinos americanos provenientes das províncias do Prata ou dos países andinos.

SOBRE A IDENTIDADE

A identidade de um determinado grupo é medida pela sua diferença em relação a outros grupos sociais ou étnicos. Antes da Segunda Guerra, era demarcada pela raça; como resultado desta hecatombe, passou a ser definida pela etnia, nova forma de marcar a diferença. Vários são os critérios para definir a identidade e um dos mais importantes deles é o da cultura, representada pelos saberes e fazeres regionais e seus valores, crenças, hábitos e costumes.
É possível traçar a identidade regional, a partir de seus elementos culturais, que a tornam uma região típica e única. Uma das características culturais desta região é o tipo humano. Originário dos imigrantes europeus, passou a ser chamado de colono, que significa morador da antiga região colonial.
Quem é o colono? O colono hoje é o morador da zona rural, ocupado no setor da vitivinicultura, ligado à produção da uva e a do vinho. Tal designação, que outrora constituía um estigma, hoje tornou-se  motivo de orgulho e de satisfação em tempos de abastança turística. Hoje o colono é um produto regional como o vinho, como as festas de colônia, como a produção colonial.
Mas nem sempre o colono foi este produto. Houve tempo no qual os colonos eram apresentados na historiografia tradicional como trabalhadores, pacíficos, bons e honestos. Possuidores das qualidades previstas no credo positivista: ordeiros e progressistas. A historiografia positivista não levava em consideração o seu modo de ser e de agir. A ação dos colonos foi definida pela sua condição de estrangeiros numa terra estranha e de língua estranha. Vários incidentes políticos revelam a outra face do colono. Um destes incidentes, narrado por Ângelo Ricardo Costamilam, mostra as perseguições políticas sofridas por seu pai - membro de uma das Ligas Católicas, criadas pelo controvertido padre Pedro Nosadini - promovidas pelo governo positivista  do Rio Grande do Sul. Tais perseguições teriam levado o comerciante de Loreto à morte.
Os jornais da antiga regional colonial italiana dos fins início do século XIX e início do XX são pródigos em noticiar as lutas e os conflitos ocorridos entre os seguidores da Igreja e os da Maçonaria nos municípios da antiga região colonial italiana. Manifestos conflitos e tocaias ocorrem em todos os rincões, de Bento Gonçalves a São Marcos. Nos pequenos municípios onde existiam maçons e católicos o radicalismo imperava, repetindo as velhas lutas políticas da península itálica com a chamada Unificação Italiana, na qual Garibaldi sintetiza o herói maçom e, o Papa, o mártir  católico.
Os colonos europeus, em sua maioria italianos que povoaram a antiga colônia Caxias, não apreciavam a política. De Boni, em clássico trabalho sobre a imigração, afirma o negativismo dos colonos, que preferiam se manifestar contra determinadas medidas e atitudes do que apresentar propostas. A negação de sua participação política é explicável, pois, para os colonos estrangeiros a política nacional constituía um risco. Muitos são os exemplos de casos que resultaram na expulsão do Brasil, ou mesmo na morte de imigrantes mais afeitos a brigas e movimentos políticos.
Por outro lado, deve ser considerado o fato de que a maioria dos imigrantes era de camponeses que viviam na Europa como meeiros ou proprietários de pequenas porções de terra. O camponês, pela própria natureza de seu trabalho, é conservador, pois está submetido aos caprichos do tempo. Secas, enchentes, e geadas que afetam a produção os obrigam a esperar, já que não podem alterar o clima. Tal forma de se relacionar com a natureza levou Hegel a concluir a cega confiança do camponês em Deus, considerado responsável pelo crescimento das plantas cujas sementes ele lançava ao solo. Esta forma passiva personificar o trabalho da natureza, da germinação dos vegetais às doenças, atribuindo a Deus este papel, não ocorre com o homem ligado à produção industrial. Este acredita na astúcia de sua própria razão, isto é, na possibilidade que tem de dirigir não só a produção como o  seu próprio destino.
Entre o colono e o morador da cidade há muita diferença. O colono é crédulo, ingênuo, e acredita nos mitos fundadores de sua cultura, na religião, nos valores e nos costumes. Encara a vida e os outros com desconfiança. Já, o citadino tem outras manhas e outro modo de agir. Apesar de ser como o colono originário do campesinato europeu, sabe   que é  dele que dependem tanto a sua produção como a sorte  de sua empresa. Ele deve prever como será o produto e em qual mercado pode ser vendido. Deve pensar em fazer contatos com o poder público - ainda que dele desconfie tanto como o colono. Não pode esperar por Deus para que sua produção seja vendida. 
Cidade e campo, na região, correspondem a moradores das vilas e da colônia, ou seja, da zona urbana e rural, cujos trabalhos e ações têm perspectivas diversas. Possuem posições religiosas e políticas diferentes. Tais diferenças podem ser hoje verificadas nos resultados das eleições municipais. Nesta região, nos municípios cuja população urbana é maior do que sua população rural, os eleitores votam em candidatos e partidos com perfil progressista, enquanto a população  rural prefere os de partido e perfil conservador.


SOBRE A POLÍTICA

A diferença entre o homem urbano e o colono ocorre na religião e na política. O homem pobre da cidade aos poucos vai se voltando para as novas religiões evangélicas e pentecostais, lotando os novos templos que se instalam em grande número e abandonando a Igreja de suas raízes culturais. O colono continua com sua crença tradicional, trabalhando em festas da Igreja sem cobrar por seus serviços, e destinando o lucro dos eventos para a Paróquia. Aparentemente ainda não há na zona rural outros cultos e outros templos.
 O industrial da cidade usa a política - e em muitos casos até da religião - para seu benefício, como uma forma de investimento cujo retorno é sempre garantido. O colono, por outro lado, auxilia a religião com sua contribuição. Acredita que assim agindo investe em Deus e que Ele continuará protegendo sua produção. Ambos usam na religião um sistema de trocas, cuja forma é diversa. Esta diferença não significa que o industrial seja mais esperto do que o agricultor, mas demonstra que cada um é profundamente marcado em sua ação  pelo seu modo de fazer e de produzir.
    Desde os primeiros tempos da ocupação da terra, no último quartel do século XIX, outras crenças existiram. Em Caxias, em 28 de janeiro de 1886, foi organizada a Loja Maçônica “Força e Fraternidade”, a primeira da região. Anos mais tarde, em 1894, em Bento Gonçalves passou a funcionar a Loja Concórdia. Segundo Colussi, "Grande número de imigrantes fazia parte desta sociedade; em Caxias havia 103 membros e, em Bento Gonçalves, 69”.
           A criação e a existência de lojas maçônicas nas colônias consideradas redutos exclusivo de católicos revela que a hegemonia da Igreja tinha seus opositores. A leitura das atas das lojas revela que muitos dos iniciados eram agricultores, que viviam em seus lotes coloniais. Muitos destes colonos maçons eram inspetores de travessão, ou seja, encarregados pela Comissão de Terra de vigiar os outros colonos.
A proclamação da república não foi recebida com alegria na região. Floriano Molon informa que diziam seus antepassados que “no dia 15 de novembro o Brasil devia chorar, não fazer festa”.  Grande parte dos colonos eram monarquistas e lembravam com gratidão D. Pedro II, que tinha pago sua  a viagem.
Também o papel da Igreja, através do clero local, foi importante na condução da política regional. A tutela política da Igreja se manifesta através da criação das Ligas Católicas e mais tarde nas ligas eleitorais católicas, que conduzem os votos de seus fiéis não para Cristo, mas para os candidatos aprovados pelo controle da Igreja.
Segundo Costamilan, a política neste período é instável e turbulenta, ocorrendo uma revolta popular em 25 de julho de 1892, que depõe o Congresso Municipal pela segunda vez. Oito dias mais tarde, o Conselho é reconduzido ao poder através da força do governo estadual. As revoltas dos colonos contra o governo estadual ocorrem pela cobrança excessiva de impostos. Delas participaram mais de trezentos homens.
As lutas regionais sempre estiveram vinculadas às questões estaduais. A política riograndense foi marcada pela luta entre federalistas e republicanos, em 1893, que deu origem à Revolução Federalista, cujas causas estão inseridas na própria instabilidade política da recente ordenação republicana. A região não ficou imune aos combates, estando situada a meio caminho entre os Campos de Cima da Serra e a capital provincial. Era  passagem obrigatória das duas facções em busca de abastecimento para suas tropas.
Os imigrantes católicos em sua maioria tinham afinidades com os maragatos. Como o líder do partido, Silveira Martins, eram conservadores e apreciavam a monarquia. Já, as elites urbanas regionais eram republicanas. Os colonos guardavam um velho sonho monarquista, o que os levou a optar pelo Império do Brasil. Os republicanos (ou periquitos) lutavam pela sua república positivista, enfim conquistada.
A Revolução acarretou mortes e prejuízos na região povoada por colonos italianos. Assediados pelos litigantes, passaram por momentos difíceis. Os prejuízos e os danos materiais sofridos na região são incertos, como também o é o número de vítimas. Conta Adami que no dia 6 de dezembro de 1893 foram encontrados dois corpos, amarrados e degolados no fundo de um barranco na estrada que levava a Nova Trento (hoje Flores da Cunha). Em Alfredo Chaves, lembra Helena Amantea, houve pelo menos três mortos nas famílias Bacin, Pegoraro e Dalponte. Segundo a Ordem do Dia N º 56, de 1º de julho de 1894, dada pelo comandante das tropas legalistas, Capitão Francisco Alves dos Santos, foram vinte os cadáveres encontrados nas ruas de Caxias, um deles o do capitão Miguel Antônio Dutra Neto, “apunhalado e massacrado covardemente pelos miseráveis”. Entre os mortos havia um tenente, um alferes, um sargento e dois cabos.
As lutas regionais têm seu lugar assegurado na imprensa. No período compreendido entre 1897 e 1997 na região circularam nada menos do que 193 periódicos. Muitos deles tinham vínculos políticos partidários. Entre eles havia os que defendiam o papado contra o Reino da Itália, os que eram maragatos, republicanos, integralistas, getulistas, e até um fascista e um comunista.  Alguns eram de irmandades como a Maçonaria e outros  da Igreja católica.
As questões políticas ocorridas na região durante as duas guerras mundiais são um capítulo à parte na história riograndense. O espaço limitado permite apenas contatar que os moradores da região mais sofreram do que realizaram movimentos durante os dois conflitos.  Na década de 1930 houve alguns novos enfrentamentos entre as autoridades  e a região, em relação á cobrança de impostos, tendo como palco Antônio Prado.
Os "pacíficos" colonos também sabiam lutar por seus interesses. Se as lutas entre os intendentes maçons e os conselheiros católicos da região poderiam servir como matéria-prima  para novos Guareschi retratarem outros Pepones e Dons Camilos,  perdidos nos  vales e  montanhas da serra, marcados  pelo fundamentalismo  político e religioso, alguns episódios são tão trágicos que clamam por um Sófocles.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


ADAMI, João Spadari. História de Caxias do Sul. Caxias do Sul: São Miguel,1966.
ADAMI, João Spadari. História de Caxias do Sul – I tomo: 1864 – 1970. Caxias do Sul: Edições Paulinas, 1971.
Álbum do Centenário da Imigração Italiana. Porto Alegre: Edel,1975.
ANTUNES, Dumiense Paranhos. Documentário Histórico do Município de Caxias do Sul:1875-1950. São Leopoldo: ARTEGRÁFICA,1950.
Cinquantanario della colonizzazione italaina nello Stato del Rio Grande del Sud:1875-1925.Porto Alegre/ Roma: Globo/ Ministero degli Affari Esteri, 1925.
COLUSSI, Eliane L. A maçonaria gaúcha. Passo Fundo: EDIUPF, 1998.
COSTA Rovílio; BATTISTEL, Arlindo. Assim vivem os italianos: vida, história, cantos, comidas e estórias. Porto Alegre: Est,1984.
COSTAMILAN, Ângelo Ricardo. Homens e mitos na história de Caxias. Porto Alegre: Est 1989.
CRUZ NETO, João da. Sinopse Histórica da Aug. e resp. Loja Força e Fraternidade de Santa Tereza de Caxias do Sul: 1887 –1903. Monografia não publicada, elaborada em Caxias do Sul, 1977.
DE BONI, Luís Alberto (Org.) Brasil e Itália. Caxias do Sul: Est/Educs,1983.
DE BONI, Luís Alberto; COSTA, Rovílio. Os italianos do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Est /Educs/Correio Riograndense.1984.
GIRON, Loraine Slomp. As sombras do Littorio: fascismo no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Parlenda,1994.
IANNI,Octavio Aspectos políticos e econômicos da imigração italiana. In: Imigração Italiana: estudos. Caxias do Sul, EDUCS,1979.
 JORNAL DE CAXIAS. Ano II, Nº 617, 17 de  dezembro de 1984.
MOLON,Floriano; História de uma família. Porto Alegre: Est, 2001.

POZENATO, Kenia M.Menegotto e GIRON, Loraine Slomp. 100 anos de imprensa regional 1897-1997. Caxias do Sul: Educs,2004.

sábado, 25 de outubro de 2014

DOS ÚLTIMOS

                                                                      



DO ADEUS
No vúi saverghene le lege  nôve!
Me basta quele antighee!mi só tuto[1]
           
O luto marca a viagem dos que deixam sua pátria. Para trás deixaram a terra em que nasceram aonde viveram seus antepassados.Deixam parentes ,amigos e  toda uma  vida já vivida e  renegada pelas circunstâncias. "A terra que possuía dava-lha sustento para três meses ao ano, para sobreviver os italianos pobres deviam procurar trabalho além dos Alpes ou além Oceano.” ( DALL ACQUA ,1983.P.114) Acostumados à busca incessante pela sobrevivência, trocar a Europa, onde não tinham futuro, pela América - terra da esperança - não parecia tão difícil.
Os documentos exigidos para a viagem eram apenas um entre os demais. Acostumados a viagens periódicas para outros países alguns dos imigrantes já conheciam a burocracia ligada aos passaportes.Na grande travessia aqueles que tinham experiência em sair da pátria auxiliavam os outros que não ainda não  tinham deixado sua terra..

 A viagem para eles foi a cerimônia do adeus O medo do desconhecido embarca com os imigrantes Com eles trazem o passaporte. Atestado de  sua condição de exilados. O exílio ainda que voluntário não é fácil. Passaporte, exílio e luto-pela perda da antiga vida e dos antigos laços-marcam os imigrantes até o fim de seus dias.

Os passaportes esquecidos nos arquivos podem ser prova de incúria administrativa ou de um esforço para esquecer. Como os navios queimados de Cortês, os passaportes esquecidos marcam  a impossibilidade da volta .

Na bagagem trouxeram alguns livros de rezas e de orações.. Alguns manuais religiosos e guias práticos (Bertarelli1890)Eram as mulheres e os padres os responsáveis pela cultura e pela vinda de livros. eles trouxeram.





DO ESQUECIMENTO
           
Nol piánze sol parquel che'l gá assá drio
,pianze perchê el gavêa lu el futuro[2]

O esquecimento para os imigrantes foi uma conquista. A conquista de um novo espaço, de uma nova condição social. Da condição de servos,empregados ,meeiros passam para a condição de proprietários.Em relação ao  valor pela escassez da terra na Europa passam a ser grandes proprietários .Muitos desejam esquecer a fome e a miséria e os seres queridos deixados no além oceano.O esquecimento passa pela queima dos antigos documentos, como uma faxina  da memória.
Na terra natal havia o poder da nobreza e do Estado, os quais temiam por entendê-los, na nova terra continuam temendo ainda mais por não os entender. Os documentos dos imigrantes ,esquecidos em órgãos públicos- e que hoje jazem aos milhares  em arquivos públicos- testemunham  a sua  rejeição pelos colonos
Poucos falam da antiga terra. Esquecer significa calar. O amor da pátria natal é transferido para a terra, não a nova pátria, mas ao lote do qual são proprietários.
Sem vínculos com os papéis que lembram sua antiga condição os colonos queimam o que podem do passado. Tal queima inviabilizou a dupla cidadania de muitos "oriundi".
Por desconhecimento ou por querer esquecer os registros do passado, alguns colonos deixam de registrar seus filhos, e até de registrar as mortes. Alguns  deixam para   registrar  os filhos quando três ou quatro já haviam nascido. Alguns registram as filhas com nomes masculinos, outros repetem os nomes para filhos diferentes. Ao que tudo indica há relação entre o processo de esquecimento o não registro dos filhos e dos óbitos.

DO LEMBRAR



E quá son paron mi! misó tuto![3]

Lembrada é a escritura da terra. Lembrada é a nova condição de proprietários. Os documentos da terra são sempre guardados, em pastas, em baús, em caixas e, significativamente, em malas.
Alguns exorcizam o passado como com cartas jactanciosas procuram trazer o que sobrou da a família para a nova terra. como no caso de Paolo Rossato que mandou buscar a família inteira [4]·. Outros  escrevem suas memórias. Muitas das memórias escritas também foram destruídas pelos filhos. Outras foram preservadas como as de  Dal Acqua .[5]
Alguns escondem a verdade da situação para não preocupar os pais, poucos lastimam a mudança para o Brasil, sinal evidente que a condição de senhores parecia compensar as outras perdas.



DA PRESERVAÇÃO

L'ómo,vanti de tut ,ghe ocor che impare
A far qualcosa, ancora tosetin!
Pi tardi,se 'l ga testa bona-scola![6]
              
Não é por acaso que foram os padres católicos a pensar na preservação dos documentos e no registro da história da imigração. Várias congregações religiosas acompanharam o movimento da população pobre da Itália em direção ao Brasil. Capuchinhos, Scalabrinianos acompanharam a dura instalação dos colonos nas colônias brasileiras. Deixaram muitos registros. registrado. Foram os capuchinhos os responsáveis pelo registro da história dos colonos, entre eles o mais produtivo Frei Rovílio Costa.(cuja obra vem citada em anexo)
Se os primeiros imigrantes tinham alguma instrução, a maioria da geração seguinte teve pouco ou nenhum acesso ao estudo. Desenvolveu-se entre os colonos certo desprezo pelo estudo e pelo conhecimento. O conhecimento prático era mais importante que o dos livros. Saber trabalhar valia mais do que estudar.
Foi a partir do centenário da imigração que a preservação das fontes e documentos começou a ser pensada. Na gênese do interesse foi importante a criação do curso de História ,em 1960, e a da Universidade de Caxias do Sul, em 1967.
Antes de 1975 apenas poucos historiadores se interessavam pela imigração italiana, merecendo destaque a obra de João Spadari Adami. [7]Em 1975 realiza-se um concurso de obras sobre a italiana no Rio Grande do Sul, os primeiros estudos são elaborados e publicados··.
No mesmo ano de 1975 foi organizado o Museu Municipal e o Arquivo Histórico de Caxias do Sul . Na década de oitenta foram criados os arquivos históricos de Bento Gonçalves, Garibaldi ,Antônio Prado e na década de noventa o de Veranópolis.
Nos arquivos municipais se encontra muita da documentação sobre a história regional e a maioria da documentação da história municipal.[8]
A partir da década de oitenta muitas teses e dissertações de professores da Universidade de Caxias do Sul, se ocuparam da imigração italiana no RS.[9]




DA BUSCA
Massa vinde instrussion el zê un perícolo!
E bever sol com sê ,com  vocassiôn![10]

 Na década de quarenta, o sucesso econômico de alguns imigrantes passa a chamar a atenção dos historiadores, um dos primeiros que teve sua história registrada foi o industrial Abramo Eberle , fundador da Metalúrgica Eberle. (FRANCO,1942.)

A partir de década de oitenta muitos trabalhos de pesquisa são realizados sobre as história dos municípios surgidos na zona de colonização italiana, histórias de comunidades e histórias de famílias[11]. As histórias de família que tentam juntar os pedaços perdidos da árvores do passado. Tem duplo objetivo : a dupla cidadania e a busca das raízes . Há também um componente de ufanismo, em tal busca, como se no caminho dos sem terra italianos estivessem enterrado seus brasões.
Tais obras são repositórios históricos: de fontes ,de mitos e da ideologia regionais. Mereceriam alguns estudos.


DO DEVIR
Quá el dover lé laorar!
na tassa sôra chi no laora mia?[12]

            A cultura dos imigrantes italianos tem sido estudada pelo Projeto Elementos Cultural da Antiga Região Colonial Italiana do RS (ECIRS) que recolheu os indícios da cultura dos italianos e de seus descendentes, sob o ponto de vista antropológico, e que possui vasto acervo da pesquisa realizada.
Merecem destaque os trabalhos de dialetologia realizados por Vitalina Maria Frosi tendo como foco a antiga região colonial, cujo acervo se encontra no Centro de Documentação da UCS (CDOC).
As publicações do Arquivo Histórico João Spadari Adami de Caxias do Sul, que tem algumas publicações tradicionais como os boletins Memória e Origens. O Arquivo possui vasta  coleção de fotos e alguns vídeos sobre o tema imigração italiana no RS
Há ainda a considerar a literatura regional sobre a imigração - fonte inestimável sobre a cultura regional, com várias obras publicadas, entre as quais pontifica a obra O Quatrilho de José Clemente Pozenato.




ALGUMAS REFERÊNCIAS


BATTISTEL, Arlindo Itacir e COSTA, Rovílio. Assim vivem os italianos. A vida, italiana em fotografia. Porto Alegre: EST/EDUCS, 1983.
BATTISTEL, Arlindo Itacir e COSTA, Rovílio. Assim vivem os italianos.Vida, História, cantos, comidas e estórias. Porto Alegre: EST/EDUCS, 1982.
BATTISTEL, Arlindo Itacir e COSTA, Rovílio. Assim vivem os italianos.Vida, História, cantos, comidas e estórias. Porto Alegre: EST/EDUCS, 1982.
BATTISTEL, Arlindo Itacir e COSTA, Rovílio. Assim vivem os italianos. A vida, italiana em fotografia. Porto Alegre: EST/EDUCS, 1983.
COSTA, Rovílio Organizador. Raízes de Veranópolis.. Porto Alegre: EST, 1998p. 493
COSTA, Rovílio. Imigração Italiana, minha paixão de cada dia. IN: 120 de Imigração Italiana. Caxias do Sul: CHRONOS, v.29, n.1. jan/jul/1996.p.107.
COSTA, Rovílio. Antropologia visual  da imigração italiana. Porto Alegre: EST/EDUCS, 1976. p. 11
COSTA, Rovílio. Antropologia visual  da imigração italiana. Porto Alegre: EST/EDUCS, 1976.p. 196.
COSTA, Rovílio. Imigração Italiana no Rio Grande do Sul: vida costumes e tradições-Porto Alegre: EST Sulina, 1975.
COSTA, Rovílio. Valores da Imigração italiana: cem anos depois. In: Imigração Italiana: Estudos. INSTITUTO SUPERIOR DE ESTUDOS ITALO BRASILEIROS.  Caxias do Sul: UCS/EST, 1977.  p.207
DE BONI, Luís Alberto. A Bibliografia sobre imigração italiana no ano de seu Centenário. In: Imigração Italiana: Estudos. INSTITUTO SUPERIOR DE ESTUDOS ITALO BRASILEIROS.  Caxias do Sul: UCS/EST, 1977.p.143.
DE BONI, Luís Alberto e COSTA, Rovílio. Os italianos do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: EST/EDUCS, 1979.
DE BONI, Luís Alberto. A Bibliografia sobre imigração italiana no ano de seu Centenário. In: Imigração Italiana: Estudos. INSTITUTO SUPERIOR DE ESTUDOS ITALO BRASILEIROS.  Caxias do Sul: UCS/EST, 1977.p.143.
DE BONI, Luís Alberto. e COSTA, Rovílio .Os capuchinhos do Rio Grande do Sul publicado pela EST EDIÇÕES/CORREIO RIOGRANDENSE,1996.
GARDELIN, Mário e COSTA, Rovílio. Colônia Caxias:origens.Porto Alegre:EST ,1993





[1] A lei nova não quer conhecer!E bastam-me as antigas!  Eu sei tudo! In: BALEN ,Ítalo.Os pesos e as medidas.Porto Alegre/Caxias do Sul :EST/EDUCS,1981

[2] Não chora só por tudo o que passou,chora pelo futuro que ele tinha. In: BALEN ,Italo.Os pesos e as medidas.Porto Alegre/Caxias do Sul :EST/EDUCS,1981


[3] Eu sou o patrão aqui! Eu mando! Eu! In: BALEN ,Ítalo.Os pesos e as medidas.Porto Alegre/Caxias do Sul :EST/EDUCS,1981

[4] Parte de suas cartas foram publicadas em DEBONI,L.ª  Mérica.Caxias do Sul:EDUCS,1985.
[5] Memórias de José Dall Acqua .IN:Costa Rovílio e Batistel Arlindo.Assim vivem os italianos .Religião ,música,trabalho e lazer.Porto Alegre:EST/ F. G. Agnelli,1983.p.114 e seguintes.
[6] O homem deve saber antes de tudo
trabalhar,no que for,desde pequeno!
Só depõe aptidão tivê-la escola! In: BALEN ,Ítalo.Os pesos e as medidas.Porto Alegre/Caxias do Sul :EST/EDUCS,1981


[7] ADAMI João Spadari. História de Caxias do Sul Caxias do Sul , Editora São Miguel,1972
[8] Mais informações podem ser encontradas no trabalho de:COSTA,Rovílio.Fonti per lo studio dell'emigrazione italiana in Brasile. IN:ALTREITALIE. Torino: Fondazione Giovanni Agenlli N° 1,  Ano 1 .Abril 1989
[9] Entre outros os trabalhos de :LAZZAROTTO, Valentim. Pobres Construtores de Riqueza. Caxias do Sul: EDUCS, 1981. GIRON, Loraine Slomp.  As Sombras do Littorio: o fascismo no Rio Grande do Sul.  Porto Alegre: Parlenda, 1994 IOTTI, Luiza Horn. O Olhar do Poder. Caxias do Sul:EDUCS,1998.

[10] O vinho do saber é perigoso! Tomá-lo só com sede e vocação. In: BALEN ,Ítalo.Os pesos e as medidas.Porto Alegre/Caxias do Sul :EST/EDUCS,1981


[11] Entre outros :ZARDO,Maria de Fátima .Do outro lado do rio.Família Dall'Onder -Memórias Bento Gonçalves:Arte e Texto, 1997.D ALL'ALBA.Pe. João Leonir .Os Dall'Aba-cem anos de BrasilPorto Alegre/Caxias do Sul:EST/EDUCS,1984.BRESOLIN,Luciano. Imigração italiana:Os Bresolin.Passo Fundo: Pe.Berthier,1994  .
[12] Trabalhar é o dever!Porque não criam Imposto para os que não fazem nada? In: BALEN ,Italo.Os pesos e as medidas.Porto Alegre/Caxias do Sul :EST/EDUCS,1981




sexta-feira, 10 de outubro de 2014

REGIÃO: PRIMEIROS CINEMAS



                                                                                             Kenia M. M. Pozenato
                                                                                  Loraine Slomp Giron



                                                                                                                                                         
O projeto Cinemas na Região Colonial Italiana do Rio Grande do Sul: 1900 - 2000 ligados ao Projeto 100 Anos de Comunicação, pesquisou a história da Região a partir do levantamento dos cinemas que existiram e dos que ainda existem até a atualidade, tendo sido realizado o registro histórico e iconográfico de cada uma das casas de espetáculo encontradas, através de entrevistas e de fontes documentais.
            Foi verificada a existência de cinemas nos municípios de Caxias do Sul, Flores da Cunha, Farroupilha, São Marcos, Bento Gonçalves, Santa Teresa, Monte Belo do Sul, Garibaldi, Carlos Barbosa, Salvador do Sul, Coronel Pilar, Antônio Prado, Nova Roma do Sul, Nova Pádua, Ipê, Veranópolis, Nova Prata, Vila Flores, mas poucos desses municípios possuíram casas de espetáculos no período analisado. Não foram encontrados testemunhos do período inicial em várias das cidades estudadas.
            A presente comunicação tem como objetivo apresentar os primeiros cinemas locais, nos tempo inicial da introdução da Sétima Arte na Região. As histórias aqui descritas estão baseadas nas memórias dos moradores mais antigos e em fontes documentais, as quais, por sinal, são irrisórias, quase inexistentes. As memórias mais antigas referem-se aos cinemas de Caxias, Antônio Prado, Bento Gonçalves e Flores da Cunha (Nova Trento).



EM CAXIAS

            O cinema em Caxias começa com o Teatro Velho, que funcionou no final do século XIX e início do XX, na esquina das ruas Visconde de Pelotas e Os Dezoito do Forte, onde hoje funciona o Donna Shopping. No início, estava instalado num prédio de madeira, tendo mais tarde sido reconstruído em alvenaria, com camarotes e balcões. O palco do Teatro Velho foi decorado pelo artista plástico Pietro Stangherlini.
            As notícias e as lembranças sobre o Teatro Velho são poucas. Recebeu este nome porque, no início, servia como casa de espetáculos teatrais, onde artistas caxienses e de outros lugares apresentavam números artísticos. Eram artistas amadores que cultivavam as artes cênicas, como Olympio e Maria Emilia Rosa, e Corina Stangherlini. Os espetáculos, tanto musicais como teatrais, eram montados e apresentados para o público local.
            Nos primeiros tempos as máquinas de projeção eram transportadas de um lugar para outro no lombo de mulas, e os espetáculos cinematográficos eram apresentados em várias cidades, sempre em locais que abrigassem grande número espectadores. Em Caxias, o Teatro Velho era o local apropriado para passar as fitas de cinema. Músicos locais eram contratados para animar a apresentação dos filmes mudos e a população acorria em peso às apresentações. Eram dias de festa e animação para a então pequena Vila. As primeiras apresentações cinematográficas vinham sempre de fora, dependiam do cinema ambulante, de pessoas que traziam e projetavam os filmes, cobrando ingressos. Pagavam algum aluguel pela sala e logo iam embora. Não permaneciam na cidade nem as máquinas, nem os lucros resultantes dos espetáculos.
A primeira nota sobre o Teatro de Caxias no jornal aparece em O Cosmopolita de 11 de janeiro 1903. Informa sobre a realização de um grande concerto vocal e instrumental com os artistas Sybila Fontoura, Amália Giesen, Virgílio Fontoura, Ítalo, Luiz, Hugo e Ernesto Bersani. Nesse espetáculo foram apresentadas áreas de óperas, canções italianas e peças musicais. Na semana seguinte, no dia 18 de janeiro, no mesmo jornal, há um longo comentário sobre a atuação dos artistas amadores, que, segundo o articulista, “são péssimos”, nada mais do que simples diletantes.    
Em 1905, O Cosmopolita ( 11 de março de 1905, p. 2.)
, na coluna chamada Parte Italiana, informa que o espetáculo cinematográfico foi suspenso por ter-se estragado o cinematógrafo, o que revela que os espetáculos eram realizados de forma precária.
Com o passar do tempo, os cinemas se fixam nas cidades, mas os filmes continuaram a ser transportados em lombo de mulas. Nessa época, as primeiras máquinas de projeção compradas eram antigas, de segunda mão. Só bem mais tarde foram comprados modernos equipamentos de projeção e construídos prédios adequados para espetáculos cinematográficos.
 Os primeiros empresários do setor cinematográfico de Caxias foram Hermenegildo Burato, João Finco e Pedro Fonini, que mandaram construir a primeira sala destinada à exibição de filmes: a do Cinema Juvenil. No início funcionou na sede da Sociedade Caxiense de Mútuo Socorro Príncipe di Napoli, situada na Rua Garibaldi, entre as ruas Júlio de Castilhos e Sinimbu. Mais tarde foi transferida para um prédio de madeira, situado na esquina das ruas Dr. Montaury e Júlio de Castilhos, no lote nº 10 da quadra 22.  Corria então o ano de 1907.  Caxias era uma pequena vila e o transporte ainda era realizado por meio de mulas e carretas. A população do município era de cerca de 30 mil habitantes, mas na vila viviam apenas 2 mil habitantes, já que 90% deles ainda viviam na colônia.
O Cinema Juvenil teve maior duração. Ainda em 13 de dezembro de 1915, anunciava sua programação no jornal Cidade de Caxias  como se pode ver pela reprodução a seguir:

PROGRAMAÇÃO PARA AMANHÃ

1° confecção de um busto, natural, 2º Amor Tardio – Drama, 3° Túlio quer emagrecer - cômica, 4º João O marinheiro enamorado, 5° Sixto Quinto – grandioso e soberbo film histórico época 1590, 6° Robinetto sua mulher e seu primo ultracômica. Chamamos a atenção para o filme Sixto Quinto”.

Numa nota apresentada na Seção Livre, o mesmo jornal informa:
Será exibidos no apreciado Cinema Juvenil a bela fita d’arte grandemente aplaudida em outras localidades; Filme Histórico baseado na França com a extensão de 500 metros - O processo Dreyfus -. E ainda A Ópera “Norma” acompanhada pela orquestra do cinema seguido pela fita de atualidade – A revolta do batalhão naval do Rio de Janeiro.
Nos dois casos ficam claro que na época a programação era composta por vários filmes de curta duração em sequencia e que o espetáculo era variado, apresentando musicais, comédias, dramas, filmes históricos e documentários sobre acontecimentos nacionais, como o que relata a Revolta da Armada, que aconteceu no Rio de Janeiro, em 1910.
A importância do cinema não se limitava à apresentação dos espetáculos e à influência no gosto individual da população, influenciou também a vida social da pequena cidade. Essas mudanças foram tão importantes que mereceram até nota no jornal, como a que se pode encontrar na Secção Livre de O Evolucionista, de 07 de fevereiro de 1916, que faz alusão ao surgimento de um novo e moderno sistema de namoro propiciado pelo cinema, em que os namorados faziam um prolongado passeio até o bairro de São Pelegrino e depois iam ao cinema, assistir ao filme. Os namoros, antes restritos às salas das casas de família, ou às festas religiosas, começam a realizar-se ao ar livre e nas salas de cinema.
Pouco tempo depois do Juvenil, foi inaugurado o Cinema América, situado na esquina das ruas Marquês do Herval e Júlio de Castilhos, onde hoje funciona o Banrisul. A casa era de propriedade de Francisco Buffardi. Com a inauguração da nova casa de espetáculos, tem início uma acirrada concorrência entre os proprietários dos dois cinemas.             Os proprietários do cinema Juvenil, para desanimar os do América a prosseguir, faziam distribuição gratuita de ingressos para os espetáculos cinematográficos. O Cinema América, como revide, passou a apresentar sessões ao ar "livre", motivo pelo qual a população de Caxias se aglomerava em frente a uma tela improvisada com um pano e colocada no corredor que existia entre o cinema e a residência de Ambrósio Bonalume, onde mais tarde foi construído o Cine Guarany.
O Cinema América fechou, não resistindo à concorrência. O equipamento foi vendido para José Balen e outros.  Foi então aberto o Cinema União em prédio alugado de Francisco Balen, situado na Rua Júlio de Castilhos, próximo da esquina com a Alfredo Chaves. Este teve curta duração, sendo posteriormente vendido a Argeu de Ben, que lhe deu o nome de Cinema Íris. Nem a memória nem as fontes escritas preservaram a história desta casa de espetáculos. Sobre esses cinemas restou apenas breve citação do historiador João Spadari Adami (1966,p361)
O Cine Ideal, aberto a seguir, teve como proprietários Caetano Finco, Raymundo Buratto e Ludovico Sartori. Funcionava em prédio rústico de madeira, na esquina das ruas Marquês do Herval e Júlio de Castilhos. O prédio era o mesmo em que haviam funcionado outros dois cinemas. O Cine Ideal durou mais tempo que os anteriores e sua programação era anunciada nos jornais locais. No dia 8 de novembro de 1914 era anunciado, no jornal O Cosmopolita(08 de novembro de 1914. p.3), o importante filme Mas... Meu amor não morre, tendo como protagonista Lydia Borelli. Segundo este jornal, era o cinema preferido da cidade.
O jornal A Encrenca ( dezembro de 1914, p. 2). apresenta o Cine Ideal como o mais simpático centro de diversões caxienses, anunciando a projeção dos filmes A Bíblia e O rei de ouro, como dramas de grandes aventuras. Vê-se que os cinemas ganham espaço nos jornais e que os mesmos provocam novas mudanças de hábitos entre os caxienses, e anunciadas nos jornais.
O jornal A Encrenca apresenta pequenas notas sobre o que acontece nos cinemas da região, chamadas Vida alheia ou Estão dizendo, notas que trazem informações interessantes sobre as relações entre as casas de espetáculos e a vida social da cidade e sobre as péssimas condições da exibição. Segundo o jornal, chegaram a ocorrer dezesseis interrupções numa única projeção, devido à falta de habilidade do operador. Em outra nota, encontra-se a alusão a um namoro no interior da cabine de projeção do cinema, onde uns "noivinhos" não deram atenção ao filme, "trocando beijinhos".·.
 A coluna Estão dizendo, de 1º de janeiro de 1915, informa que o Cine Ideal é o “paraíso terrestre para conquistar, já que é ponto delicioso para esse esporte". Outras afirmações revelam mudanças no namoro, com liberação nos costumes, já que um jornal alerta que as sessões com fitas duplas "estão prejudicando a zona". Parece que na cidade o cinema estava intimamente associado ao namoro, tanto entre jovens como entre viúvos, propiciando "a troca de namorados". A palavra zona é uma clara menção à zona do meretrício, que existia em Caxias, naquela época.
O público nem sempre era grande nas sessões cinematográficas do Ideal, poucas eram as noites de lotação esgotada apesar da publicidade e dos apelos no jornal.  Na coluna Echos da Semana do mesmo periódico é anunciada a apresentação “dos aplaudidos artistas Max e Suely Giteelmann”, mas uma crítica assinada por Bacicia A (ENCRENCA, dezembro de 1914, p. 2)fala da péssima atuação dos diletantes, num drama apresentado por artistas locais no cinema.
O Cine Ideal continuou por muitos anos; em 1914 era considerado o mais popular cinema da cidade de Caxias. Sobre ele o jornal O Cosmopolita, em 19 de outubro desse ano, publicava anúncios onde são elogiadas as condições de ventilação, do prédio e de ponto esplêndido, exibindo ainda “films d’arte das melhores fábricas”. A Praça Dante Alighieri, onde funcionava o Cine Ideal, era o ponto mais importante do centro da cidade. Ali também estavam instalados quiosques comerciais, nos quais era vendido de tudo um pouco. Além da Igreja Matriz, havia também a Padaria Familiar e o Café América, sendo que este último dava como referência para sua localização o Cine Ideal, que ficava ao lado, na Rua Júlio de Castilhos. Próximo ao cinema, na Rua Marquês do Herval, funcionava o Hotel Globo, onde os visitantes e viajantes comerciais se hospedavam.
            Após o fechamento do Cine Ideal foi inaugurado, no mesmo prédio, o Cinema Riograndense, de propriedade de Mário Batista Cristófari. Nesse prédio, situado na Rua Júlio de Castilhos, próximo à Rua Alfredo Chaves, funcionaram sucessivamente os cinemas Colyseu, Íris, União e Pathé. Com exceção do Colyseu, todos os demais com pouco tempo de duração.
            O cinema Colyseu foi inaugurado em 6 de fevereiro de 1915. Seus proprietários eram Carlos Balen, Luiz Batastini, Ernesto Rossi, Ângelo Rech, Luiz C. Timers, Carlos Adami, Adelino Rech e Ângelo Chiarello. Todos trabalharam no cinema, o primeiro como operador, e os demais eram componentes da orquestra.

No jornal CITTÀ di Caxias em 1919 uma coluna intitulada NOTIZIE VARIE: totalmente em italiano que trata dos espetáculos teatrais aparece

 TEATRO JUVENIL
Ormai e cosa certa che avremo fra noi, la settimana prossima l’eccellente companhia italiana di operetta: Maresca – ciprandi – Buccini.
Il debutto della compagnia é stato fissato per martedí prossimo; ignoramo però com quale operetta.
Il «CITTÀ di Caxias» augura ai distinti artisti lieta permanenza nella perla delle colonie. (sic).( de 16 de novembro de 1919,p.  4)

            Hermenegildo Meregalli, com 96 anos na época da entrevista, ainda que passados tantos anos lembra-se de cenas divertidas que lá ocorriam, como a de uma freira que subia e descia a escada e sobre a qual diziam "derramaram leite em cima da cabeça dela. Naquele tempo, eu tinha 15 anos. Eu me lembro de um filme que passava naquele tempo, de Rodolfo Valentino".
Lembra também que o Colyseu durante algum tempo foi o único cinema de Caxias. Isso "foi antes de 1920 e o cinema ainda era mudo. Então  começaram a passar um filme de bichos e outras coisas, e quando de repente apareceu um papagaio, lá, que ia descendo: ‘Varda lá o papagaio!’ (Olha o papagaio!, no dialeto da região), diz o Ulysses (menção ao irmão menor). E todo mundo lá dentro deu uma risada".   
O Colyseu lembra Sylvia Ártico, "tinha sala de filmagem de luz e sombra. Na plateia havia cadeiras coloniais de palha e, por serem os filmes mudos, na época, havia uma orquestra composta de 3 violinos, violão, violoncelo, clarinete".
             Meregalli lembra ainda que houve grande publicidade para o lançamento da primeira versão do filme Ben-Hur, sendo realizada até uma parada na Rua Júlio de Castilhos. Hugo, seu irmão mais novo, desfilou vestido de soldado romano, "com a saia curta de romano, com as pernas de fora; saia, chapeuzinho e chicote. Desfilou em cima de uma carroça puxada a cavalo, que corria em disparada". Segundo Meregalli, muita gente assistiu à parada e gostou, mas Hugo nada recebeu pela apresentação, apenas a entrada. Este episódio ocorreu no ano de 1925 ou 1926.
            A inauguração do Cine Theatro Apollo, em 1º de janeiro de 1921, com uma ampla sala de projeções, inicia o período de ouro do cinema em Caxias.

           
EM ANTÔNIO PRADO

         A história das casas cinematográficas em Antônio Prado inicia em 1912, com o Cinema Familiar. Em 14 de julho de 1927 foi fundado o Cine Familiar do Clube Gaúcho. A rivalidade entre os dois cinemas era muito grande e sem complacência, iniciou com o próprio nome. As sessões eram realizadas exatamente no mesmo horário, para verificar qual dos dois atraía mais público. Essa rivalidade chegava a ponto de um dos cinemas roubar os cartazes do outro, conforme lembram os moradores mais antigos de Antônio Prado.
Muito lembrada m Antônio Prado foi Rosalba Fedumenti Dotti, professora de música e natural de Caxias, que fazia parte de uma pequena orquestra, normalmente de quatro ou cinco instrumentos, que acompanhava os filmes tocando sua trilha musical, cuja partitura acompanhava a fita. Na época do cinema mudo, os músicos eram figuras importantes para o espetáculo.
Normalmente eram realizadas duas sessões, aos sábados e domingos. Na projeção trabalhava Paulo Zaniol.
         Em 26 de dezembro de 1928 foi criado o cinema do Clube União, para competir com o do Clube Gaúcho, e que funcionou até 25 de maio de 1936. Situava-se em frente à atual sede do Clube União, num prédio construído em madeira de lei, considerado muito bonito pelos moradores. Infelizmente, segundo depoimentos obtidos, a casa foi demolida e sua madeira vendida para que o Clube União, com o dinheiro da venda, pudesse concluir sua sede social.
         As lembranças sobre esses cinemas são esparsas, como as de que suas cadeiras eram de palha e que nos dois cinemas podiam ser acomodadas de 300 a 350 pessoas. Havia uma única máquina de projeção e para trocar o rolo do filme havia intervalos. Quando acendiam as luzes, a plateia aproveitava para conversar. Nos cinemas eram apresentados também espetáculos teatrais, como os montados pela família de Pedro e Conceta Ranzolin, que trouxe da Itália o gosto pelo teatro e montou uma pequena companhia que encenava peças, possuindo seu próprio guarda-roupa artístico.
         No Clube Gaúcho foi inaugurado em 1927 o Cinema Gaúcho, pertencente à família Palombini.  Da mesma forma que os anteriores, tinha cadeiras de palha e acomodava entre 300 e 350 pessoas. As sessões eram realizadas aos sábados e domingos.
         É lembrado pelos entrevistados um episódio triste ligado ao Cinema Gaúcho. Calvino Palombini, filho do proprietário, era operador do cinema e sofreu um acidente. Para fazer um conserto, subiu num poste da rede elétrica. Caiu da escada, bateu com a cabeça e, em consequência da queda, veio a falecer.



EM NOVA TRENTO

Não só em Caxias e em Antônio Prado havia cinemas no início do século XX. Os principais distritos também possuíam prédios onde podiam ser apresentados filmes. Claudino Antônio Boscatto
(1984,p.68) lembra que em Nova Trento havia um prédio de madeira, erguido por volta de 1910, com o aproveitamento da madeira da antiga Igreja Matriz, demolida para construção da atual. Este local servia para salão de festas, onde se realizavam bailes, representações teatrais e projeções de figuras em movimento, com a primitiva lanterna mágica e, mais tarde, de cinema mudo. Pertencia à Sociedade Pró-Trento. Com a dissolução da sociedade, no início da década de 40, a Paróquia de São Pedro ficou como única proprietária do referido prédio e terreno, conforme rezavam os estatutos da mesma Sociedade.
            As projeções de filmes mudos em Nova Trento começaram em 1920, aproximadamente, com a energia elétrica sendo fornecida diretamente para o cinema por um pequeno motor de propriedade de Alexandre Micheletto. Na época, ainda não havia energia elétrica na vila. O projetor de filmes era manual, e como melhor operador destacou-se Mansueto Carpeggiani.
            Os filmes eram transportados de Caxias, a cavalo, dentro de pessuelos - nome dado aos sacos de pano ou couro postos sobre os cavalos - e eram projetados aos sábados e domingos. A sessão das 20 horas era anunciada com espocar de foguetes, trinta minutos antes do início. As sessões de domingo, em matinée, iniciavam às 14 horas.
            Uma orquestra acompanhava os filmes mudos para animar os espetáculos. Formavam essa pequena orquestra a pianista Lélia Mascarello, a violinista Zaira Mascarello e o clarinetista João Mambrini. Os entrevistados lembram que músicos e repertório eram muito bons. Muitas pessoas iam ao cinema mais para ouvir a orquestra do que para ver o filme.
            Ao contrário da música, a imagem nem sempre era clara, pois ficava apagada pela fumaça produzida pelos espectadores, que podiam fumar à vontade durante a projeção dos filmes. Esse trabalho exigia muito cuidado, pois a manivela devia ser rodada com as rotações certas. Estas não podiam ser muito vagarosas e nem muito velozes, sob pena de apresentar as cenas em câmara lenta ou extremamente aceleradas, o que tornava o espetáculo hilariante ou ridículo. Para projetar o filme, o operador devia fazê-lo com a mão direita, pois a manivela ficava à direita do projetor. Lembra Boscatto que,

 Numa noite de domingo, enquanto rodava o filme – seriado – 'O Furacão', o operador Mansueto Carpeggiani – muito atento no desenrolar do enredo esqueceu-se de rodar a manivela do projetor na velocidade necessária. O filme era muito emocionante e com lances imprevisíveis. Em um deles, o mocinho e a mocinha estavam amarrados nos trilhos da ferrovia – haviam sido presos pelos bandidos – enquanto o trem já chegava bem próximo a eles. Durante essa cena, o operador ficou um tanto chocado com o que poderia acontecer e rodou o filme lentamente – talvez inconscientemente. Quem sabe quisesse salvar o mocinho e a mocinha, que iriam ser esmagados pelo comboio ferroviário. De repente, absorto que estava com o desenrolar dos fatos, parou de rodar a manivela do projetor e a pantalha do aparelho ficou parada na parte escura. Os espectadores em protesto sapatearam como forma de reclamação pelo filme ter sido interrompido na melhor parte. Só então o operador se deu conta do "cochilo" involuntário, mas a fita já havia queimado, por causa da parada. Ele teve que emendá-la e depois continuou a rodar o filme. Após o término da sessão, desculpando-se, disse “Sempre há a primeira vez, mesmo sendo considerado o melhor dos operadores.·(IDEM).


            Boscatto ainda diz que todos os filmes eram rodados com somente um projetor, por isso sempre havia alguns minutos de espera a cada rolo que terminava, dando tempo para que o operador o substituísse por outro. "Na metade do filme acontecia um intervalo de meia hora para ir até o bar do cinema tomar refrigerantes ou adquirir caramelos". No início da década de 20, a sala de cinema foi alugada para Francisco Mascarello, outro entusiasta da arte cinematográfica.
                        Foi nesse salão que aconteceu a famosa história do galo, em 1922. Nesse ano houve a apresentação de um mágico que dizia que cortaria a cabeça de um galo, depois a recolocaria e o galo voltaria até a cantar como se nada tivesse acontecido. Na ocasião, todos os ingressos foram vendidos. Começou o espetáculo e, a certa altura, o mágico solicitou ajuda para o delegado e uma outra pessoa influente na cidade. Alguns chegam a dizer que era o juiz, mas não há comprovação. O delegado segurou a cabeça do galo e o outro, o corpo. Nas palavras de Severino Bulla, "aí cortaram a cabeça do galo, que sujou tudo. O mágico pediu para nos concentrarmos para voltar a grudar a cabeça do galo. Então ele saiu, pegou o cavalo e o dinheiro e se mandou, até hoje".
            Desta forma, aconteceu no cinema, palco do episódio, o fato que deu a Flores da Cunha, então chamada de Nova Trento, o nome de "Terra do Galo".


EM BENTO GONÇALVES

            Um dos primeiros cinemas de Bento Gonçalves é  lembrado por  Lea Ponticelli Dall Ígnea, nascida  em 1916, quando já existia o cinema de sua família.

Eu me criei lá dentro do cinema, aí eu cuidava dele desde os seis anos. O cinema era dos meus pais e antes deles de meus avós paternos". (...) "e eu me criei lá, isso. Saí com a idade de 17, 16 anos, quando meu pai vendeu o cinema. Nesta época o cinema era mudo. Noé Ponticelli, meu pai, tinha uma "banda" que animava as apresentações.

            Seu nome era Cine Teatro & Café Bento Gonçalves e foi inaugurado no dia 13 de agosto de 1911. Na realidade, era conhecido apenas como Cinema Ponticelli. Fundado por Maria Ponticelli, mãe de Noé, situava-se em um prédio de alvenaria, na esquina das ruas Saldanha Marinho com Marechal Deodoro e funcionou até 1934.
            O Cine Teatro & Café Bento Gonçalves tinha cadeiras coloniais com acento de palha, ligadas entre si por uma ripa pregada atrás delas, para não serem movidas do lugar. Na plateia, cabiam 500 pessoas. Havia um corredor no meio e mais um de cada lado, para facilitar a circulação. Havia ainda camarotes, onde cabiam seis pessoas e que podiam ser alugados por mês. Desta forma, os espectadores que os alugassem podiam assistir a novos filmes todas as noites, uma vez que a programação mudava diariamente. Segundo a programação apresentada nos jornais, era composta de quatro ou cinco pequenas fitas, salvo as grandes produções, cuja apresentação era única.
            A população ficava sabendo do início da projeção através de uma sirene, que avisava nos dois últimos quartos de hora. "Antes o início da sessão soava a sirene, marcando a hora do início do filme. Tocava, então o pessoal já sabia, ia assistir ao filme".
            Segundo Dall'ignea, outra forma de saber se haveria ou não sessão cinematográfica à noite, era através de uma lâmpada que uma estátua de mulher, colocada na cúpula da parte central do cinema, segurava na mão esquerda: "quando tinham os filmes eles acendiam aquela lâmpada, então toda a cidade podia ver que a projeção tinha iniciado".
            Na metade do filme havia um intervalo de quinze minutos, para que o rolo fosse rebobinado. "no intervalo em geral os homens saíam tomar cafezinho e comprar balas. Enquanto as mulheres ficavam dentro do salão, não saíam". Mas havia outros intervalos, quando arrebentava o filme, "porque era celuloide, aí ele (o projetista) tinha que parar pra colar e continuar". Outros intervalos ocorriam "depois de cada fita, cada rolo, era um intervalo de cinco minutos, era para trocar o filme".
            Nesta época só havia este cinema e só muitos anos depois abriu o cinema Aliança. "em 40 já tinha fechado o nosso. O pai ficou com o prédio mais um tempinho, depois derrubaram." Mas o cinema servia para espetáculos teatrais e outras atividades sociais: "depois da sessão algumas vezes havia reunião dançante".
            Lembra Dall'Ignea:
À tarde, por exemplo, depois do matinês a gente amontoava todas as cadeiras e dançava. E quando tinha baile era tudo baile de gala, sempre. Então tiravam todas as poltronas e virava em baile, em clube. Todos os domingos de tarde a gente dançava. Todos os domingos de tarde, depois da matinês, depois do filme, a gente amontoava as cadeiras e dançava.

            Na frente do cinema ficavam os cartazes anunciando a programação, que o próprio dono do cinema desenhava e colocava na porta. Eram feitos de madeira. "As pessoas da cidade, bem arrumadas, passavam pela frente do cinema para olhar o programa a ser apresentado, e então entravam". Naquela época "todo mundo ia ao cinema, não tinha outra... não tinha opções, tinha que ir ao cinema, ninguém falhava".


CONSIDERAÇÕES FINAIS

            As lembranças dos primeiros cinemas da região são vagas e imprecisas. Os nomes daqueles homens ou de suas pequenas empresas que literalmente levaram o cinema nos lombos de mulas para regiões mais distantes foram esquecidos. Nas histórias regionais os cinemas são os grandes ausentes. A lembrança, tanto dos que assistiram às "fitas", como daqueles que as passavam, está morta e para sempre perdida.
            Apenas os jornais retratam um pouco sobre os primeiros tempos dos cinemas, pois acompanharam a concorrência entre os exibidores.
            Os primeiros cinemas, como os primeiros jornais regionais, tiveram curta duração, sinal evidente de sua baixa rentabilidade. Só o fato de serem pequenas empresas familiares, onde a família desempenhava várias funções, conseguia mantê-los abertos. Caso típico de proprietário de cinema é o de Noé Ponticelli, de Bento Gonçalves, que dirigia a empresa, tocava na orquestra que acompanhava a apresentação dos filmes mudos, e ainda fazia os cartazes. Ou seja, como outros proprietários dos primeiros cinemas, desempenhava várias funções. Estava distante o tempo da especialização e o da profissionalização da diversão cinematográfica.



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JORNAIS

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A ENCRENCA. 27 de dezembro de 1914.

A ENCRENCA. Nº 1, 20 de dezembro de 1914.
CAXIAS: Órgão Independente. 12 de abril de 1928.

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CITTÀ DE CAXIAS. 14 de dezembro de 1921.
CITTÀ DE CAXIAS. 7 de setembro de 1922.
CITTÀ DI CAXIAS. 16 de novembro de 1919.
O COSMOPOLITA: Orgam dos Interesses Coloniais.1º de agosto de 1902.
O COSMOPOLITA: Orgam dos Interesses Coloniais.11 de janeiro de 1903. 
O COSMOPOLITA: Orgam dos Interesses Coloniais.11  de julho de 1903.
O COSMOPOLITA: Orgam dos Interesses Coloniais. 14 de julho de 1903.
O COSMOPOLITA: Orgam dos Interesses Coloniais. 19 de junho de 1903.
O COSMOPOLITA: Orgam dos Interesses Coloniais. 11 de março de 1905.
O COSMOPOLITA: Orgam dos Interesses Coloniais. 19 de outubro de 1914.
O COSMOPOLITA: Orgam dos Interesses Coloniais. 8 de novembro de 1914.
O EVOLUCIONISTA. 7 de fevereiro de 1916.
O REGIONAL. 28 de maio de 1927.


ENTREVISTAS REALIZADAS

ENTREVISTADO:

DATA:
Assunta de Paris
15 de julho de 2004
Alda Menegotto Cipriani
14 de agosto de 2003
Áureo Bertelli
10 de setembro de 2004
Corina Michelon Dotti
15 de março de 04
David Andreazza
18 de março de 2004
Hermenegildo Meregall
17 de abril de 2003
Hilário Sgarioni
11 de dezembro de 2003
Ibanor Steffenon
31 de maio de 2004
João Cláudio Garavaglia
13 de julho de 2004
Lea Ponticelli Dal'Ignea
18 de abril de 2005

Luis Vicentim
04 de março de 2003
Mário Bocchese
15 de março de 2004
Severino Bulla
28 de outubro de 2003
Sylvia Gedoz Ártico
16 de agosto de 2003
Virgínio José Bortolotto (Nilo)
06 de dezembro de 2003














* Drª em Ciências da Informação e Comunicação pela Université D'Aix-Marseille (Marselha, França) e Profª do Departamento de Comunicação da UCS.
** Drª em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e Profª do Departamento de História e Geografia da UCS.