segunda-feira, 28 de maio de 2012


CHEGA A FERROVIA 


Os trilhos à espera do trem.Forqueta 2012 .Foto da autora.

Uma dos desejos  dos colonos italianos  era a ferrovia,que ligasse a colônia Caxias à capital .As promessas eram muitas e datavam do tempo do império.Julgavam os imigrantes,de forma acertada, que com a ferrovia haveria mais progresso,com ele a valorização das terras e o melhor e mais rápido escoamento dos produtos coloniais .
Em abril de 1874, um ano antes da chegada dos imigrantes italianos nas colônias imperiais  da encosta,foi inaugurado o trecho da ferrovia ligando Porto Alegre à São Leopoldo atingindo o seu  distrito de Novo Hamburgo doi anos mais tarde em 1876. São Leopoldo era um município próspero,que  em 1874  comemorava o cinquentenário de sua fundação. Pentão assava por grande turbulência ocasionada pela reação do governo ao movimento dos Muckers  (1868-74). São Leopoldo  dada sua localização nas margens do rio dos Sinos tivera facilidade de transporte dos produtos coloniais  entre a cidade pelo  delta do Jacui à Porto Alegre .O Sinos era navegável em seu trecho inferior,suportando barcos de 200 TPB (tonelagem de porte bruto). Não há registros sobre a repercussão econômica da estrada de ferro da região,a economia cresceu em cerca de 3,4 % em relação ao ano de 1870.
Abertura da estrada de ferro Forqueta 1910 .Foto Mancuso .AHMJSA 
 A discussão sobre a construção de estradas de ferro no Rio Grande do Sul  havia começado em  1866  Mas tudo andava muito devagar  muito devagar .Em 1877 teve inicio a construção do trecho Porto Alegre e Uruguaiana que foi concluído em 1907 .
Em 1905, a Compagnie  Auxiliaire assumiu a linha entre Nova Hamburgo e Caxias .Apenas em  1909 a linha teve continuação, partindo de Rio dos Sinos, 7 km antes de Novo Hamburgo e chegou a Carlos Barbosa.No ano seguinte chegou a Caxias.
 As estações de trem foram importantes para a economia regional .Muitas cidades surgiram nesses locais.De certo modo as estações ferroviárias tiveram o mesmo papel das casas de comércio .Não poderia ser diferente em Forqueta ,que unia à casa de comércio com a estação.

.Mas só em abril de  1874, foi inaugurado o primeiro trecho que ligava Porto Alegre e São Leopoldo feito pela  Porto Alegre & New Hamburg Brazilian Railway Company  .Em 1880 teve início a construção da Estrada de Ferro do Paraná em Paranaguá Em  1884 foi inaugurado trecho da estrada de ferro Porto Alegre a Cachoeira   que ligaria a capital a Uruguaiana até Cachoeira, no ano seguinte mais um trecho  da estrada de ferro Rio Grande – Bagé. .Em 1887: foi o concluida a Quaraí - Itaqui, administrada pela The Brazil Great Southern Railway Company Ltd Em 9 de novembro de 1889, foi iniciada construção da estrada de ferro que ligaria São Paulo ao Rio Grande.
Em  1898 foi assinado o contrato de arrendamento das ferrovias federais no Rio Grande do Sul com a Compagnie Auxiliaire de Chemins de Fer au Bresil 
Estação ferroviária Porto Alegre 1884 .Internet
 A linha Porto Alegre-Caxias foi aberta no trecho entre a Capital e São Leopoldo em 1874, como a primeira ferrovia do Estado. Em 1876 foi prolongada até a estação de Novo Hamburgo. Em 1905, a Cie. Auxiliaire assumiu a linha. Apenas em 1909 a linha teve continuação, partindo de Rio dos Sinos, 7 km antes de Novo Hamburgo e chegando até Carlos Barbosa, e, no ano seguinte, até Caxias.

   Foi  com a estrada de ferro que chegaram mais trabalhadores na antiga região colonial italiana.entre eles muitos negros.  Os trabalhos de assentamento de trilhos para a abertura da estrada de ferro ligando Porto Alegre a Caxias movimentou o estado propiciando a chegada de  trabalhadores de outras regiões, entre eles antigos escravos. Os negros conseguiam trabalho nesse tipo de trabalho. Sua presença pode ser constatada pelas fotografias do trabalho de abertura da estrada de ferro.
 Sua construção exigia muitas atividades complementares como  a derrubada de pinheiros  para a fabricação dos dormentes para assentar os trilhos.Exigia ainda a exploração de pedreiras para acertar o  leito da estrada.Os trilhos eram trazidos prontos para a região.
 Os pinheirais eram numerosos na região situada entre Nova Vicenza e Caxias.  Na chamada estação Forqueta (hoje bairro de Caxias do Sul) as serrarias eram a  principal atividade econômica, nelas trabalhavam   brancos e negros . Durante muito tempo na pequena localidade negro e colonos, viveram separados.
 Os negros moravam nas proximidades da estrada que leva à  capela de Santos Anjos um salão funcionava nas proximidades onde se reuniam os negros para beber, jogar  cartas  e algumas vezes dançar. Outro  salão estava situado próximo da futura estação era onde se reuniam os colonos com o mesmo objetivo. espaço comum de entretenimento.
          As relações entre brancos e negros não se resumiam ao trabalho.  Os negros foram  importantes para os colonos por seus  conhecimentos de  plantas e de  chás Lembra dall’AlbaD “houve curandeiros e curandeiras que eram procurados para tratamento com “garrafadas” de chás, por eles preparados, geralmente, com sete, 13, 15 e até 21 ervas diferentes. Muito se recorreu a benzedores negros, mandingueiros, ou a feiticeiros do campo, conhecedores de ervas, rezas e orações fortes.”
      Com a chegada da estrada de ferro parece ter havido uma serie de conflitos entre : "brasileiros" e  “italianos”. Colonos e  “brasiliani” tinham costumes diversos. Os colonos   que haviam comprado as terras para seus filhos  plantavam milho, videiras  ,batatas ,trigo ,verduras sua subsistência e para a comercialização. Os trabalhadores "brasileiros "empregados da s serrarias pela  Companhia Belga encarregada da construção da  estrada de ferro;, que nas horas de folga descansavam e jogavam .
Segundo lembranças de Dalvo Silvestre,  os trabalhadores da serraria  Travi (lote 24 e 25 do Travessão Alencastro) reuniam-se numa “bodega” situada  além do acesso atual para Salete e Santos Anjos, ali jogavam "bocha" e as  cartas. Já os colonos preferiam jogar a  bocha  na cancha de  Joaquim   Slomp situada na frente da estação férrea.  Conta próxima  à    casa Entre  “colonos” e  "brasileiros"  estabeleceu-se  uma distância espacial  até  para o entretenimento. A separação  foi conseqüência das brigas entre os dois grupos. 
 .As diferenças não eram por causadas pela côr. Segundo  Faustino Perottoni a colônia de sua pai, situada perto da estação  foi  invadidas pelos cortadores de mato,empregados da serraria , e  suas plantações roubadas pelos novos moradores da estação.” Primeiro cortaram  os pinheiros sem pedir licença ,depois roubaram parte da colheita” .Desgostoso Artur Perottoni vendeu sua colônia em lotes e foi morar longe da estrada de ferro. Os colonos muitas vezes davam tiros de espingarda para espantar os invasores de suas terras e plantações. A defesa ainda que violenta, era uma forma de assegurar a integridade da propriedade.
           Os colonos eram pequenos proprietários, já os trabalhadores eram proletários,visto que trabalhavam para outros. No Brasil  o trabalho agrícola ,por quatrocentos anos ,foi realizado pelos escravos. Plantar e cultivar era visto com desprezo pelas elites brasileiras. Plantar era tarefa de negros e de escravos. Os trabalhadores desprezavam os colonos .Os colonos  se julgavam  superiores aos trabalhadores  por   plantar e colher em suas próprias terras. Viam com desconfiança os brasileiros que não tinham propriedade e gastavam tudo o que ganhavam .Os dois grupos tinham uma  ideologia   diferente. Os "brasileiros" gastavam , ou melhor” bebiam tudo o que ganhavam “e os colonos não comiam um ovo para não jogar a casca fora. O entendimento não poderia ser muito fácil,como realmente não o foi. As brigas dividiam o povoado .
Outro problema foi ocasionado pelas cercas de arame farpado,que impediam  a passagem das cargas pelas antigas estradas vicinais,trazendo problemas de transporte .Desastres e até algumas mortes foram ocasionadas pela estrada de ferro , como a Guilherme Tamanini sempre lembrada pelos antigos moradores.
A estrada de ferro as vezes dividia em duas uma propriedade ,  trazendo   possíveis posseiros. Com  as  casas de madeira rústica dos colonos ,Forqueta parecia uma vila    do Faroeste americano,.
A estrada de ferro fez surgir coisas “ainda piores” ,como  uma pensão mal vista pela comunidade . Os trabalhadores viviam em ranchos construídos próximos das serrarias e os da estrada de ferro,  acampavam  próximo dos trilhos . Comparadas aos ranchos dos trabalhadores, as  pobres casas dos colonos pareciam ricas
Durante muito tempo na pequena localidade brasileiros e colonos, viveram separados. Os negri moravam nas proximidades da estrada que leva à  capela de Santos Anjos um salão funcionava nas proximidades onde se reuniam  para beber, jogar  cartas  e algumas vezes dançar.
O que havia  separado os dois grupos não era a cor   mas a propriedade. Enquanto os colonos eram donos da terra, os trabalhadores só tinham seu salário. Mais que uma diferença de cor o que os separava era uma diferença ideológica  proveniente da  sua  classe social. Que existe até hoje , no clube jogam os proprietários e num salão perto da encruzilhada que deu nome ao lugar continuam jogando os trabalhadores, não da estrada de ferro mas das empresas locais. O mundo do trabalho capitalista separa os homens muito mais  que o mundo medieval. Ainda assim uma nova época tinha inicio , ocorrendo  o que parecia impensável  no final do século XIX, as uniões interétnicas  “apesar da contrariedade dos pais, sempre havia moças casando com brasileiros, com morenos e com negros.”
Mesmo trecho da estrada de ferro. Forqueta 2012. Foto da autora




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