quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

NOVA TRENTO:O PREÇO DA EMANCIPAÇÃO

    Não há lugar que tenha sido mais vilipendiado que Flores da Cunha,antiga Nova Trento . Marcada por fatos nem sempre verídicos, por piadas de mau gosto, sofreu toda a sorte de humilhações e de represálias orquestradas por alguns caxienses.








Vista de Nova Trento ,em 1924, época da emancipação.
     .              Foi humilhada  com o   recontar da  história do galo e a  da  estrada de ferro  que não veio.Foi o  mesmo tipo  de  estigma com que os portugueses   tentam humilhar os  brasileiros ao longo  dos séculos.  A origem ? A quebra dos laços históricos considerados imperdoáveis, pelos que se sentiram lesados com ela.
 Não é só   a  riqueza que move os imigrantes e seus descendentes,mas também o poder político.Até a  primeira metade do século XX os colonos foram menosprezados pelas oligarquias.Quando foram vistos como figuras marginais no  cenário político nacional e  excluídos da história regional. São  as questões políticas  que os apaixonam; grande parte dos problemas de Nova Trento/Flores da Cunha delas  derivam
A história de Nova Trento foi marcada pelas  lutas  políticas   que dividiram o Estado  após o advento da República(1889). Um  fato que levou os florenses a participar das lutas é sua posição geográfica que faz a ligação entre os campos do Planalto meridional e a a sua Encosta ,em outras palavras, entre os lusos e seu gado e os colonos e suas lavouras.Com sua população  pequena era  fácil para os revolucionários saquear  sua produção  agrícola e  seus animais ,evitando as regiões mais povoadas,como Caxias e Alfredo Chaves. Nem só de produtos agrícolas se abasteciam as tropas,mas também de homens Colhi terremunho José Corsetti que   foi obrigado  a lutar na revolução de 1923, levando inclusive o caminhão que ele dirigia de sua empresa(um dos primeiros da região)quando trafegava pela região.


Localização de Nova Trento na Região Colonial italiana do RS
  A região de Nova Trento  tem uma posição privilegiada .Está  situada no centro da chamada Região Colonial Italiana do Nordeste gaúcho. Quando da demarcação da colônia Caxias, foram previstos  dois núcleos: o da   Sede situado  na 5ª Légua, travessão Santa Tereza e  de Nova Trento  na 15ª légua ,entre o  Travessão Salgado e o Rondeli.O primeiro demarcado pela maior facilidade de acesso à capital ,o segundo por ser  o   centro geodésico da colônias ,marca indelével da colonização e do modelo iluminista empregado pelos engenheiros do império.
      O núcleo de Nova Trento foi povoada em sua maioria  por vicentinos, mantuanos e paduanos.As brigas na escolha dos nomes foi enorme. Conta Boscatto, que para resolver a questão, Sisto Rosseto (marceneiro trentino ,culto e viajado)  pregou no mais alto dos pinheiros do centro da pequena povoação,  uma grande tabuleta( 4 mX80cm) com a inscrição NOVA TRENTO traçada  a carvão. Como os trentinos eram poucos e não tinham ambições políticas o nome foi bem aceito pelo engenheiro Diogo dos Santos, da administração da Colônia. O restante da população dividida em grupos também se aquietou. E assim,  levando um  nome que pouco dizia das origens  foi  garantida  uma paz relativa sobre o nome ,por meio século. Foi com esse nome que se tornou  2º Distrito de Caxias, em1890.
O inicio do movimento  emancipacionista logo  começou. A maçonaria teve  nele papel importante, envolvendo-se  nas tratativas com a administração estadual.Já ,em 1903  há requerimentos visando  a sua libertação de Caxias. Nova Trento teve representantes no Conselho Municipal . Entre eles ,Benedeto Bigarella e Joaquim Mascarello,porém,esse fato não resolvia os seus  problemas  infra-estruturais .
Caxias não via com bons olhos o desligamento de  seu mais rico distrito; que detinha  a maior parte da produção vinícola, e do comércio de exportação
          A povoação foi duramente castigada tanto pela Revolução Federalista(1893-95) como pela de 1923. Houve mortos e alguns heróis regionais  surgiram ... Um deles foi  deles  foi Quintino Biazus ,ferido em combate em 1923, tendo morrido no dia 17 de outubro.Seu enterro em Caxias foi um acontecimento,milhares pessoas acompanharam o enterro Outro líder foi o industrialista Josué Fávaro ,que muito lutou pela emancipação e que morreu antes que fosse conseguida

Enterro de Quintino Biazus em  1923.Caxias.Av.Júlio de Castilhos
As agressões sofridas pelos colonos durante revolta de 23 deixou seqüelas. Essa  revolta foi o estopim.   Em 1924,  a   Comissão da emancipação fez um acordo com o Presidente do Rio Grande do Sul.  Em troca da vitória do PRR(Partido Republicano Riograndense ) nas   eleições  daquele ano  em Nova Trento ,Borges de Medeiros ,prometeu em troca a imediata  emancipação.        
  Joaquim Mascarello presidente da Comissão fez inflamado  discurso para a população reunida  em frente a Igreja,  informando  das condições imposta por Borges e da necessidade de votarem nos candidatos do PRR . Não deu outra! O Partido Republicano Riograndense (PRR)  venceu em Nova Trento.Em compensação  em Caxias,só ganhou com uma coalisão . De acordo com o combinado , foi concedida pelo Presidente do Estado  a  emancipação . Por meio do Decreto Estadual nº3.320,  de 17 de maio de 1924.
      Caxias perdeu além de Nova Trento , Nova Pádua e Otávio Rocha. A dívida imposta por Caxias  foi implacável e impagável:pouco  mais de duzentos contos de réis.O  total da receita de Caxias era de cerca de 500 contos de réis ( 3.000 milhões em reais atuais ). O que era muito dinheiro,par se ter uma idéia do valor  cada um dos 7082 habitantes ficou devendo  cerca  40 mil réis ,o suficiente hoje para comprar um apartamento de  240 mil reais. Mais tarde, foram feitos acertos  a divida foi recalculada e  parcelada.
Os caxienses tinham lá suas razões ,o municipio eternamente endividado e pagando juros para vários bancos, por empréstimos, perdia 40% de seu terrítório e de sua receita. Era uma grande perda.Da mesma forma que os portugueses haviam perdido cerca de 60% de sua receita e de seu império,com a Indenpendência do Brasil. Imperdoável!

Cartão Postal que retrata a manifestação dos caxienses contra a emacipação de Nova Trento,Praça Dante.

 O preço pela emancipação não foi apenas em dinheiro,outros  tipos de represálias  e elas    que duraram muito mais.  população de Caxias foi às ruas clamar contra  a emancipação,até cartão alusivo foi publicado.
Nova Trento foi preterida no Álbum do cinqüentenário. Onde mereceu apenas  1/4 de   página,bem menos  do que Ana Rech ou o bairro da Tristeza de Porto Alegre. Coisas do poder! 
 Em geral, ficou esquecida  nas obras gerais  que tratam da região, sendo obrigada a criar sua própria história Em compensação possui o melhor cronista  da colônia: Claudino Antônio Boscatto. Com lucidez e sarcasmo ele conta os fatos mais secretos da pequena comunidade,seus  percalços,amores, malandragens e safadezas .Bem ao gosto da população nacional. Mas como bom colono ,ele toma partido,não escondendo suas convicções. Livro excelente,mas muitas vezes enganoso.



Texto que  Nova Trento mereceu no Álbum do cinquentenário,
  de 1925.
 




Planta do municipio de  Nova Trento com  as seis léguas (da 10ª a 16ª) que Caxias Perdeu
 

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